Para o Nicolau
Era 1986 e o meu coração estava partido. Não por causa de nenhuma miúda. Quer dizer: em 1986, por causa, praticamente, de todas as miúdas. Mas o meu coração estava partido por outras razões. No ano das eleições presidenciais cuja segunda volta opôs Mário Soares e Freitas do Amaral, no ano em que comunistas como o meu pai se viram obrigados a engolir o sapo de votar em Soares para evitar o triunfo de um Presidente de direita, os tempos de antena que passavam à sobremesa do jantar revelavam a dura realidade. Sim, a campanha de Soares tinha o hino de Rui Veloso e os autocolantes com o sol a dizer “Soares é Fixe”…
Mas a campanha de Freitas tinha Nicolau Breyner.
Foi um duro golpe, numa altura em que eu estava longe de imaginar que um dia faria parte do planeta televisão. Do lado de cá do ecrã, no apartamento dos meus pais, em Benfica, descobrir que João Godunha, o Rocky Balboa português de Vila Faia; o Sr. Contente; o protagonista de Moita Carrasco (“Que mais me irá acontecerrrr?”); o Daddy Warbucks da versão teatral de Annie que fui ver ao teatro com a minha avó Cecília porque, entre outras coisas, tinha Nicolau no elenco… estava do lado do Mal – foi angustiante.
Nunca disse isto aos meus pais, mas, na minha ponderada análise política adolescente, eu acreditava piamente que isso significava a vitória de Freitas do Amaral. O Nico do show dos serões da RTP dava a cara como o principal apoiante mediático do candidato da direita. Mais: ele cantava o hino da campanha, P’rá Frente, Portugal. Para mim era uma canção infinitamente pior do que o Rock da Liberdade de Rui Veloso, uma pomposa e balofa piscadela de olho ao vasto eleitorado conservador e cinzento. Mas…
Mas era cantada por Nicolau Breyner.
O desgosto era grande. Porque, de repente, Nico, adorável, divertido, o tio de quem todos gostaríamos de ser sobrinhos e que nos fizera rir e comovera em doses quase iguais, era non-grato lá em casa. Ele parecia continuar a ser o conviva bonacheirão capaz de ir da comédia ao drama com graciosidade, mas – raios! – apoiava Freitas. Era, assumidamente, um homem da cor política oposta à do meu pai, que era militante do PCP. Para agravar ainda mais a questão – que, no meu caso, não era só sobre a guerra entre esquerda e direita – este apoio do encantador Nicolau a Freitas era também o apoio do encantador Nicolau ao candidato favorito do pior bully da Secundária de Benfica, meu colega de turma e um tipo que já me fazia a vida negra antes de descobrir que o meu pai era comunista e que a casa Markl apoiaria Soares. Quando descobriu, o bully pegou na vida que já me fazia negra e pintou-a de preto.
Freitas do Amaral acabou por perder as eleições, o plano da esquerda unida a resultar na vitória de Mário Soares. Lentamente, Nicolau Breyner foi deixando de ser o motor mediático do movimento P’rá Frente, Portugal e voltou a ser só Nicolau Breyner, espalhando o seu talento por variadíssimas produções para televisão, cinema, teatro. Do lado de lá do ecrã. Sempre do lado de lá.
Até ao dia em que também eu passei para o lado de lá.
Era 2003 e estou nos bastidores do Teatro Tivoli, a minutos de entrar no ar. No meu primeiro programa de televisão. Não o primeiro em que entrei, mas o primeiro a que posso chamar meu: O Homem Que Mordeu o Cão TV, na TVI. O convidado para entrevista, o primeiro de todos, é Nicolau Breyner. Mas nesse momento eu nem consigo apreender o que isso representa para mim. Não consigo raciocinar sobre o que está a acontecer – sobre o facto de estar ali o João Godunha de Vila Faia (que continua a ser uma das personagens mais humanas e calorosas que a ficção telenovelesca nacional concebeu), ao pé de mim, prestes a partir comigo a proverbial garrafa de champanhe no não menos proverbial barco que é o meu primeiro programa de televisão. Estou nervoso, estou muito nervoso. E é a única coisa que, ali atrás, a minutos do programa começar, consigo partilhar com Nicolau. E partilho não particularmente consciente de que o faço com Nicolau – calhou ser ele a pessoa que está mais perto de mim naquele momento.
Ele percebe o turbilhão que me vai na mente. Diz: “Vai correr bem.” O que poderia não ser mais do que uma cortesia vazia – mas há qualquer coisa naquele “vai correr bem” que me faz sentir realmente bem. O poder do bom velho Godunha, talvez. O que é certo é que o programa corre bem. No final, enquanto o público aplaude, Nicolau dá-me um abraço: “Correu bem ou não correu? Eu disse-te que ia correr bem!”. E sinto uma daquelas coisas raras neste meio: uma dose genuína e descontraída de sinceridade. E esse é o momento em que ele perde todas as etiquetas. Esquerda, direita, centro – a altura em que eu tive de engolir o meu próprio sapo: é claro que ele já era este bonacheirão afectuoso quando apoiou o candidato de que não gostávamos lá em casa e o classificámos como vilão.
Decidi nesse dia que, noutra vez que nos encontrássemos, teria de fechar o círculo nesta história. E assim foi: numa ida do Nicolau à Rádio Comercial, em 2010, não resisti em contar-lhe o desgosto que ele dera a um jovem fã caixa de óculos de 15 anos em 86 – o ano em que João Godunha, o camionista-pugilista de quem todos queríamos ser amigos, apoiou “o candidato facho”. Ele riu-se. E para me tranquilizar assegurou-me: “Olha que sou o gajo de direita mais de esquerda que há!”
Na verdade, não interessa a tendência política. Há gajos porreiros e filhos da mãe, e Nicolau, com quem falei várias vezes mas acabei por nunca trabalhar, era um dos porreiros. Vamos todos sentir-lhe a falta.