A celebração da lentidão

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Hoje vi o trailer de 24 Legacy, a nova temporada da histórica e seminal série de acção que chegou a ser um sério vício na minha vida. O trailer é entusiasmante – mesmo sem Jack Bauer (Kiefer Sutherland é só produtor, desta vez), a nova série parece ser um turbilhão imparável de acção, suspense, dilemas morais – enfim, mais um dia! Fui fã de 24; lembro-me do quanto fiquei embasbacado quando me cruzei com a primeira temporada. Havia ali a combinação explosiva entre uma genuína sede de inovação e a máquina bem oleada de acção de Hollywood. Era viciante. E continuou a ser, mesmo que, aqui e ali, fosse requerida ao espectador uma dose mais do que generosa da chamada “suspensão de descrença” para aceitar aquele bombardeamento de acção. Nunca alinhei na “falha” mais apontada pelos cépticos: “Então e quando é que o Jack Bauer faz xixi?”. Como qualquer um de nós: nos minutos dos intervalos (se bem se lembram, o relógio embutido na série contava o tempo dos anúncios). Digamos que como material narrativo, uma pausa para ver Bauer num urinol, a esvaziar nervosamente a bexiga (ou algo mais) enquanto sussurrava “vá lá! Vá lá”,  não seria um ganho notável para o espectador.

Mas pronto: vi a apresentação de 24 Legacy. Fiquei impressionado.

E depois vi o episódio que me faltava de Better Call Saul, a segunda temporada. E, não querendo parecer arrogante, a conclusão a que cheguei é que – com todo o respeito por 24 - eu não sei se aquela ainda é uma série para mim.

Não sei se é da idade, ou daquilo a que uma facção da melhor ficção televisiva americana nos tem habituado. Better Call Saul é o oposto de 24: numa era de velocidade vertiginosa adequada ao nosso curtíssimo raio de atenção, a série de Vince Gilligan e Peter Gould ousa remar contra a corrente – como já remava Breaking Bad, a sua série irmãÉ uma série orgulhosamente lenta, ostentando a sua aparente ausência de acontecimentos como uma medalha. No caso de Breaking Bad, a maneira como manipulava o tempo parecia uma provocação directa a 24: a acção da saga de Walter White acontece no espaço cronológico de um ano. A maneira como a história está contada e como se estendeu ao longo de seis temporadas (e cinco ou seis anos no mundo real), criou uma estranha mas fascinante sensação de “tempo irreal”, ao contrário do ansioso “tempo real” de 24. Isso é adorável. Eu nunca passei 24 horas seguidas de um dia na companhia de Walter White, mas passei vários dias de 24 horas (em teoria) a seguir Jack Bauer. Isso deveria ter-me feito conhecer bem Jack Bauer – e a série é admirável, ainda assim, na maneira como obriga o herói a fazer coisas, por vezes, tão anti-heróicas – mas Walter White (tal como outras figuras de séries orgulhosamente não-velozes como Tony Soprano) é quase como se fosse da família, enquanto que Jack Bauer é como se fosse… da TV.

Better Call Saul segue a mesma política. Vistas bem as coisas, nos 20 episódios que compõem as duas temporadas da série que conta a origem do exuberante advogado Saul Goodman, não acontece muita coisa. O que a aproxima da vida tal como ela é – mas com histórias mais interessantes do que as das vidas da maior parte de nós (creio que todos estamos gratos de não conhecermos nenhum Tuco Salamanca). A maravilha destas séries é que, em última análise, conseguem ser infinitamente mais imersivas que 24. A velocidade faz de nós espectadores, assistindo à montanha russa deliciosamente implausível (e sem dúvida que dá um gozo do caraças); a lentidão ponderada – mas nunca aborrecida – de Better Call Saul entranha-nos nas vidas daquelas pessoas a um ponto tal que parecemos conhecer-lhes as mais pequenas e detalhadas idiossincrasias. Não há um momento previsível, direitinho e embrulhadinho com um laço no topo, em Better Call Saul. A vida de Jimmy, Mike, Kim, move-se nos mesmos padrões bizarros e inesperados da vida, umas vezes tomando decisões certas, noutras erradas; algumas resultam em algo de espectacular, outras redundam num desfecho assumidamente desprovido de brilho. E é tudo perfeito nessas imperfeições.

E é por isso que, numa era que nos oferece tanta coisa tão boa e diversa para ver, eu não sei se ainda consigo ter interesse em 24 Legacy. É o velho “been there, done that”. Já lá andei, já lá fui feliz. Já lá vivi todas as surpresas possíveis. Não creio que depois de tudo o que aconteceu a Jack Bauer e seus parceiros, algo de mais espectacular e diferenciador possa acontecer aos novos protagonistas da série.

Mas tenho a certeza absoluta de não ter nenhumas certezas sobre o que vai acontecer – a um ritmo infinitamente mais lento e ainda bem – às pessoas que compõem a fascinante simulação de vida que é Better Call Saul. E isso é maravilhoso.