A zona de desconforto

Em 1983, no clássico filme O Sentido da Vida, os Monty Python apresentavam um interlúdio animado, criado por Terry Gilliam, que me fez chorar a rir pelo inesperado que era. Inesperado até mesmo depois de percebermos qual é a ideia. É simples e brilhante:

Sim, é humor negro. Sobre suicídio. A morte é alvo de várias piadas n’ O Sentido da Vida – perto do final do filme, de forma literal, quando a Cruel Ceifeira ela própria visita um grupo de alegres convivas que falece após um jantar, com uma intoxicação alimentar.

Mas sim – suicídio. De folhas de árvore.

É provável que hoje os Monty Python estivessem tramados. Há um vídeo maravilhoso de John Cleese sobre o politicamente correcto e como a hipersensibilidade das pessoas, no mundo de hoje, mata a comédia e uma das suas funções primordiais: o acto de entrar, a rir, por zonas de desconforto.

Sempre adorei humor que goza com inevitabilidades trágicas. Temer a Morte é terrível, porque nos deixa em profunda angústia a vida inteira. Gozar com a Morte é a única maneira de lidar – e, de certa forma, vencer – os medos que ela nos provoca. Mas de há uns anos para cá, a sede de muita gente de colocar muros à volta do que provoca desconforto – na vã esperança que esconder acabe por significar o mesmo que não existir – torna o mundo um lugar mais triste.

Eu tive a sorte de começar a escrever humor profissionalmente nos anos finais de descontracção do mundo perante a comédia sobre tragédia. Quando trabalhei em programas como Herman Enciclopédia, o espírito ainda era de salutar relaxamento perante assuntos desse negrume. Lembro-me de, por essa altura, as Produções Fictícias terem criado um sketch que parodiava o programa Cenas de um Casamento, de Guilherme Leite, transformando-o em Cenas de um Funeral e criando uma série de situações bonacheironas e bem dispostas sobre morte. É claro que algumas vozes protestaram, mas não muitas. Houve mais protestos alguns anos depois, quando, no programa Os Contemporâneos escrevi com o Francisco Palma um sketch para a personagem do Chato, interpretada pelo Nuno Lopes, em que ele, na sua ânsia de criticar toda a gente (“Vai mas é trabalhar!”), lançava uma diatribe furiosa contra um morto, num velório.

Também n’ Os Contemporâneos, o Bruno Nogueira e o António Feio fizeram um sketch sobre o fantasma da morte perante uma doença terminal. E também sobre o pendor para homenagens não só póstumas, mas na chamada antecâmara. O António tinha ganho há pouco tempo um Globo de Ouro oferecido pelo Nuno Lopes (que o ganhara na categoria de actor de cinema). O António Feio adorava gozar com a doença de que padecia e alinhou neste momento libertador:

Para o António Feio, foi genuinamente importante fazer isto. Vencer os medos, minimizar as angústias. Vencer a doença, durante uns minutos, pelo poder libertador do humor. Boa parte do público percebeu – apesar de me lembrar de discutir com alguém que tinha ficado revoltado com este sketch. Alguém que, ao contrário do António, tinha saúde para dar e vender. Mas que me disse “vocês não podiam ter feito aquilo”. Ao que eu expliquei: “Mas o António FEZ aquilo. E é ele que está doente.”

“Ainda assim”, foi a resposta do outro lado. “Há pessoas que estão doentes e que, se calhar, vão levar a mal”.

É claro que não podemos contrariar ou controlar a percepção que cada pessoa tem de um sketch. Mas eu acredito que, da mesma forma que fazer esta rábula foi importante para o António Feio, alguém que estivesse a atravessar o mesmo problema iria encontrar algum conforto neste desconforto. De repente, está tudo em cima da mesa, a ser abertamente falado. E abertamente gozado. Sem desrespeito – apenas retirando o peso a algo que já é suficientemente pesado.

Como não escrevi nem entro neste sketch, estou à vontade para dizer que o acho uma jóia. Acho-o genuinamente importante, afectuoso, humano. Mandando à fava a solenidade trágica da pompa e circunstância tão negras no facto de Estar Doente.

Vêm estas observações a propósito de uma polémica com a qual me cruzei quando estava hoje a pesquisar notícias estranhas para O Homem Que Mordeu o Cão. É uma polémica típica desta era de fusão explosiva (e perigosa) entre o politicamente correcto exacerbado e a propensão das redes sociais para o linchamento aleatório em massa. O linchamento em massa das redes sociais deve servir bons propósitos – eu não tenho pena nenhuma que o idiota que maltrata cães esteja a ser sovado por toda a gente na Internet; ele estava a pedi-las e merece uma lição épica, porque é uma besta cruel e não pode haver compaixão para com bestas cruéis – mas as ondas de linchamento tornaram-se tão comuns que acabam por retirar força às causas que genuinamente merecem que se grite contra elas.

De repente, tudo é passível de ser entendido como um atentado, como uma ofensa. Cada dia há um novo linchamento em massa levado a cabo por pessoas que tanto ficam transtornadas com o que é importante como com o que é acessório. Ou com o que é absolutamente inofensivo.

Caso em estudo, largamente badalado por estes dias: este shampoo.

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O “Shampoo de Pêssego para Cabelo Suicida” existe, aparentemente, há anos. Com este nome. Teve a sorte de não ter sido fotografado por uma pessoa com conta no Twitter até agora – e também de, há uns anos, a política de rede social enquanto arma de combate a quase tudo, seja pertinente ou não, ainda não estar tão afinada como agora.

A partir do momento em que alguém decidiu assassinar no Twitter este shampoo, publicando esta foto, o fogo pegou que nem em mato seco: durante umas horas, o Peach Shampoo For Suicidal Hair foi a mais recente cruzada de centenas e centenas de pessoas iradas nas redes sociais – o que, inevitavelmente, acabou com a empresa que produz o shampoo a ter de pedir desculpa e a retirar o produto das prateleiras das lojas.

Sim, todos temos plena consciência de que o suicídio é terrível. Mas tenho a sensação de que, há uns anos, todos teríamos também consciência de que um shampoo contra a queda de cabelo que diz ser para “cabelo suicida” não falta ao respeito a esse drama tão tragicamente comum à espécie humana. Faltará tanto ao respeito quanto o sketch dos Monty Python sobre as folhas que caem. Não é um apelo a que as jovens adolescentes que compram o shampoo Peachy Head se desatem a atirar de precipícios, nem minimiza a incomparável tragédia que é um suicídio de um ser humano. É uma irreverente (como todo o humor deverá ser) mas inofensiva piada sobre queda de cabelo.

Só que foi um cavalo de batalha em que, de novo, o Bem – hordas de defensores da decência – venceu o Mal – um filha da mãe de um shampoo contra a queda de cabelo.

Cada vez se relativiza menos; cada vez se atira mais a matar. Contra tudo. Até vivermos num mundo que continuará soterrado em injustiças e em tragédia (porque é assim a espécie humana), mas cada vez menos com a possibilidade de a comentar ou de a minimizar, vencendo-a pelo humor. O que mergulhará o planeta – e a um ritmo cada vez mais avassalador – numa piscina de tristeza asséptica onde nadaremos todos “contentes”, trocando apenas fotos dos nossos gatos, tentando esconder de nós próprios que a desgraça existe.