Batman, Superhomem e, por estranho que pareça, o Padrinho

Já vamos ao Batman e ao Superhomem. Antes disso:

É bom ser convidado para projectos de sonho. E projectos de sonho são, boa parte das vezes, aqueles que não nos dão dinheiro – dão, simplesmente, doses generosas de puro prazer. Há anos que eu nutro o sonho de ter um cine-clube, de gerir um cinema de bairro onde possa exibir os filmes que quero, fazer ciclos, partilhar a experiência de ver cinema numa sala de cinema, à antiga, numa era distante da frieza do multiplex. Eis que me cai no colo a possibilidade de ser embaixador de um projecto extraordinário chamado CinePop. O CinePop nasce da carolice do Tiago Carvalho, incorrigível geek cinéfilo e realizador (dirigiu há uns anos Nirvana), que, nos últimos meses, tem estado a desdobrar-se em contactos com os mais variados detentores de direitos das mais variadas fitas dos anos 70 e 80, para as conseguir exibir, ao ritmo de uma por semana, no Fórum Lisboa – o antigo Cinema Roma, onde os lisboetas viram muitos dos filmes da sua vida. Resultado: ele assegurou uma lista deliciosa de filmes das nossas infâncias e juventudes e todos os domingos à tarde vamos poder vê-los numa mítica sala de cinema de Lisboa ao preço de 2 euros e meio o bilhete. A chamada uva mijona, mas uma uva mijona cinéfila.

Onde é que eu entro? Entro porque fui convidado para ser o embaixador desta iniciativa, o que envolve que, antes das sessões, eu passe pelo palco do cinema para dizer algumas coisas sobre o filme que se segue. Não se preocupem – não quero maçar ninguém, que as pessoas estão ali para ver os filmes. Mas queremos que a experiência seja acolhedora e humana e de partilha – e por isso, apesar do gigantismo da sala (é maior do que eu me lembrava!), a ideia é que o CinePop seja um espaço de diálogo, de gozo conjunto e de celebração daquilo que nos faz amar os filmes.

Dito isto, aqui está a programação das primeiras seis semanas:

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Sim, vamos logo arrancar à grande cruzando a saga d’ O Padrinho com os três primeiros volumes da saga Alien – uma semana uma, outra semana outra. Mas isto é só a ponta do iceberg, porque temos uma lista de clássicos apetecível para fazer do Fórum Lisboa – podemos chamar-lhe outra vez Cinema Roma, aos domingos? – o sítio para ir com os amigos e ver filmes ou que já não vemos há muito tempo numa sala escura em ecrã grande, ou que, se calhar, nunca vimos. Eu nunca vi O Padrinho numa sala de cinema, por isso estou em pulgas.

Os bilhetes são só €2,5 e vai haver uns cartões a la restaurante de fast food ou videoclube clássico em que se vai carimbando de filme em filme, sendo o décimo à borla. Lá vos espero. Vai ser o nosso cine-clube e vai ser uma maravilha.

Bom, Batman V Superhomem.

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Zack Snyder é um realizador imprevisível – ele fez os excelentes Dawn of The Dead e Watchmen, mas também fez A Lenda dos Guardiões e Sucker Punch – mas sempre cheio de potencial. Quando ele pegou numa propriedade tão importante e estimada como o Superman, no filme Man of Steel, o que aconteceu foi que todos ficámos a salivar que nem doidos com um trailer excepcionalmente bem feito, mas depois vimos o filme e, não sendo mau, ficou muito aquém da nossa excitação colectiva. E, conforme diz o meu caro amigo Filipe Homem Fonseca, Man of Steel tem uma implausibilidade de argumento que não sai da cabeça: nenhum filho deixa o pai morrer – quando seria tão fácil salvá-lo – para não ser descoberta a sua verdadeira identidade alienígena e super-heróica. Que se lixe a identidade – nenhuma criatura viva, mesmo extraterrestre, conseguiria viver o resto da vida em paz e sossego com a sua consciência (e pareceu-me que em nenhuma altura de Man of Steel Henry Cavill consegue evocar essa perturbante tortura pessoal). Foi um momento – talvez mais culpa do argumentista, David Goyer – em que as motivações da personagem foram espezinhadas pelas motivações do argumento: o pai morre porque é conveniente para a história, e nenhum pai deveria morrer por isso, seja real ou fictício.

Mas pronto: Man of Steel semeou, Batman V Superhomem: O Despertar da Justiça, vai colher. E sim, os críticos de cinema vão odiar, mas a dura verdade para os críticos de cinema (e não só eu já fui um deles, como tenho amigos que são) é que isso é perfeitamente indiferente. BvS é à prova de crítica porque não se rege pela mesma bitola de outros filmes: não é exactamente Cinema no sentido tradicional, mas uma extensão multimédia de comic books que deverá ser analisada enquanto tal. Muita da crítica atacará com os habituais “é só explosões e efeitos especiais e yada yada yada”, e de novo não se chegará a lado nenhum, e o filme vai ser um êxito e não se fala mais nisso.

Dito isto: BvS é um esplêndido espécime de comic book movie. Nem tão inquieto e realista como a saga Dark Knight de Christopher Nolan, nem tão exuberante como os Avengers de Joss Whedon, o filme pega na inspiração das bandas desenhadas mais negras e acutilantes da DC – The Dark Knight Returns, de Frank Miller, é uma das referências assumidas – e faz uma espécie de versão contada ao povo, mas sem hostilizar os fãs hardcore da BDque encontrarão toneladas de referências e de citações reveladoras do cuidado obsessivo de Snyder e dos argumentistas David Goyer e Chris Terrio para criar um filme fidelíssimo ao espírito dos melhores clássicos da era moderna da DC Comics. Henry Cavill agarra melhor Clark Kent / Superhomem do que no filme anterior e Ben Affleck compõe um Bruce Wayne / Batman tão convincente e carismático que, finalmente, os odiadores profissionais de Affleck vão chegar a uma conclusão a que estão há anos para chegar e que é: “Não me lembro porque raio comecei a odiar este gajo.” Porque nem Affleck é mau actor (caramba, Gone Girl de David Fincher não chegou para provar isso?), nem é minimamente inadequado para se meter na máscara e na fatiota de homem-morcego, pelo contrário. O encontro entre os dois, com o Lex Luthor de Jesse Eisenberg no meio (e sim, Eisenberg é excelente, mesmo que esteja outra vez a fazer o Mark Zuckerberg que fez para David Fincher, apenas ligeiramente mais maníaco), tem pathos e mitologia em doses suficientes para fazer de BvS um excelso espectáculo para fãs das personagens e dos comics. E ainda não falámos de Gal Gadot como Wonder Woman.

O único problema da Wonder Woman da senhora Gadot é a maneira como, após fazer a sua extraordinária entrada em cena na acção – e acreditem que é mesmo das melhores entradas em cena que um super-herói já teve, ajudada, ainda por cima, pela música bombástica de Hans Zimmer e Junkie XL – ela enfraquece de forma irreversível a adorável Lois Lane de Amy Adams. A culpa não é de nenhuma das actrizes – talvez seja dos argumentistas e do realizador, que agem com a pobre Amy como um marido ignóbil de meia-idade age ao ficar fascinado por uma moça mais nova, ignorando a esposa. É o único pecado em torno da Wonder Woman: o modo como atira Lois para um papel de “dama em apuros” que fica aquém da reputação de mulheraça com eles no sítio que a jornalista do Daily Planet sempre teve, seja com Margot Kidder ou com Teri Hatcher.

Dito isto: Gal Gadot, como já pude referir hoje de manhã na Comercial, é uma superstar instantânea. Eu sei que ela já tinha aparecido em filmes como a saga Fast and Furious, mas como Super-Mulher (ou Mulher-Maravilha), ela excede-se numa explosão de carisma capaz de fazer não apenas homens, mas mulheres, crianças e talvez mesmo criaturas de outras espécies, suspirar com vontade de ver o filme da Wonder Woman. Este filme põe a actriz e modelo israelita no mapa de forma maior-que-a-vida.

Batman v Superhomem é um filme longo, nem sempre veloz e desembaraçado (tem muita coisa para dizer e muita personagem para apresentar, algumas já a marcar lugar para os próximos tomos do universo cinematográfico DC, como Flash, Aquaman ou Cyborg), mas é um espectáculo de celebração de uma arte nobre – a BD – feita por pessoas que querem ser mais do que uma mera máquina para vender merchandising. Não converterá novos fãs para o género ou para as personagens, mas para quem aceitar deixar-se levar na viagem, é um festim. Que, ainda por cima, toca – ao de leve, para não se meter em sarilhos – num certo espírito dos tempos. Quando vemos o milionário Wayne a criticar as potenciais más intenções de uma criatura vinda de fora e a populaça a queimar bonecos do Superhomem, é impossível não pensar no que se passa hoje na América. Ainda assim, Bruce Wayne daria um Presidente muito mais realista e sensível do que Donald Trump. Essa é que é essa.