Começando num filme sobre a Guerra Fria e acabando na Paris de hoje

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Sem querer ser spoiler, há duas cenas no filme A Ponte dos Espiões (o tal que tive o privilégio extremo e inesquecível de ir ver a Londres, numa sessão seguida de um encontro com o realizador, Steven Spielberg, e o actor principal, Tom Hanks) que são particularmente pertinentes nesta altura. A personagem de Hanks, o advogado James Donovan, aceita defender um espião russo.  O Governo quer que ele o faça para passar para o exterior, de forma puramente calculista, uma imagem impoluta e justa da América; Donovan aceita porque, na verdade, aquele homem estava apenas a fazer o seu trabalho (da mesma forma como americanos o faziam na URSS e na RDA) e, na verdade, não matara ninguém.  E porque manter vivo o espião pode significar que haverá uma eventual moeda de troca no caso do Bloco de Leste ter reféns americanos. E porque se desenha uma amizade entre os dois. E porque toda a vida humana conta.

A opinião pública não compreende. Reage em turba furiosa e clama pela cabeça não só do espião, que exige que vá directo para a cadeira eléctrica, bem como pela cabeça do próprio James Donovan, “um traidor”.

Na primeira cena de que vos quero falar, há uma tentativa cobarde de atentado contra Donovan. Atentado perpetrado por americanos, e que põe em risco a vida não só do advogado, como da sua família; na segunda cena, um dos polícias encarregados de investigar o sucedido, vira-se irracionalmente contra Donovan: “A culpa é sua, porque é que tinha de ajudar o espião?”. A coisa chega quase a vias de facto – depois do atentado, o advogado ainda tem de lidar, bizarramente, com a sede de vingança primária e irracional de um polícia, que era suposto protegê-lo, e que agora quase lhe quer bater.

(Não se preocupem: A Ponte dos Espiões tem surpresas suficientes para que isto não tenha sido grande spoiler.)

Consta que uma das razões pelas quais Spielberg pegou neste caso verídico do tempo da Guerra Fria é pela maneira como ecoa os tempos que vivemos, o medo do “outro”, o facilitismo de dividir comodamente o mundo entre “os Bons” e “os Maus” e de olhar não para cada vida, mas para uma amálgama delas todas juntas, meter-lhes um carimbo e ficar de consciência tranquila.

O que aconteceu em Paris esta noite foi uma tragédia assustadora. Levada a cabo, ao que tudo indica, por cidadãos franceses (ainda não está confirmada, esta informação). Depressa o Facebook se encheu de revolta inflamada de sofá, com os gritos de quem já tinha como certo que isto só podiam ser os refugiados; e de quem, admitindo que pudessem não ser os refugiados, considerava que seriam, ainda assim, muçulmanos – o que, por si só, explicaria a loucura deste ataque.

Caros, deixem-me falar-vos de um muçulmano com quem tirei o curso de jornalismo e que eu não vejo há que tempos, o caríssimo Safdar. Não sei o que é feito dele – talvez ele leia isto e possa dar sinais de vida; creio que, apesar de escrever brilhantemente e ser dos meus colegas mais cultos e informados, acabaria por não seguir a carreira jornalística para se dedicar a um negócio de família (que asseguro que não envolvia fazer explodir nada). Ele era (e continua a ser, certamente) uma boa alma, respeitador da religião alheia tal como os colegas respeitavam a dele – apesar de, confesso, brincarmos com a sua dieta durante o Ramadão; brincávamos com isso à frente dele e ele respondia à altura. O Safdar ainda teve de aguentar uma tortura a que o submeti ao perceber que ele tinha dois videogravadores em casa e que me podia fazer uma cópia de um filme que adoro, A Última Tentação de Cristo, de Martin Scorsese. Com uma nobreza ímpar, enquanto me dizia que aquele filme ia contra tudo aquilo em que a sua religião acredita, a começar pela representação de figuras sagradas e a acabar nas coisas discutíveis que o livro de Nikos Katzanzakis e a adaptação de Scorsese as punha a fazer, aceitou bondosamente copiar-me o filme. Nunca me esqueci das suas inquietas palavras quando me devolveu as cassetes: “Não me perguntes se ficou bem copiado, mantive a televisão apagada!”.

Mas fez-me o favor de copiar o filme, porque era um tipo genuinamente bondoso.

Só a existência do Safdar já mostra a impossibilidade de meter toda a gente no mesmo saco. Da mesma forma que, apesar de todos os horrendos casos de abuso de crianças que houve e continua a haver na Igreja Católica, ser uma estupidez extrema achar que toda a nossa Igreja é pedófila.

O que se passou em Paris – e em muitas outras zonas do Globo, ao longo de vários anos – é um ataque de violência psicótica que não tem a ver com religião. É uma manifestação de Mal puro, em nada diferente (a não ser na horrenda escala) a um dos inúmeros tiroteios numa escola americana ou a um banho de sangue como o de Anders Breivik na Noruega. Não há ali política nem religião, apenas loucura pura e pensamento primário.

Quando vejo no meu Facebook uma senhora revoltada com o facto de haver portugueses a chorar pela “criancinha” síria morta na praia em vez de ajudar as crianças portuguesas que passam fome, sinto que não há uma diferença assim tão grande entre a maneira de pensar desta senhora e um membro do Estado Islâmico. Esta senhora terá tido outra educação e, felizmente, não tem acesso a armas. Mas de resto, a (falta de) lógica de desprezar a vida de uma criança – independentemente da sua nacionalidade – com um pensamento primário, básico e agressivo de que tudo o que vem daquela religião só pode ser ruim… Lamento, mas é o tipo de (falta de) lógica que alimenta a loucura dos elementos do ISIS. Terrorismo é terrorismo. Não é raça, nem credo.

E por causa de um bando de loucos violentos, é provável que uma quantidade avassaladora de inocentes em fuga desses loucos violentos, acabe a pagar por isso. Já está a pagar por isso, porque o pensamento agressivo pronto-a-vestir pega nas redes sociais que nem fogo no mato.

O pessoal do ISIS sabe disso. É que eles funcionam exactamente assim.