“Politicamente incorrecto”

Todos os dias – TODOS os dias, tenho momentos em que questiono a relevância do meu trabalho. Estes momentos podem acontecer nos mais variados locais – podem acontecer segundos antes de abrir o meu microfone na rádio; segundos depois de o fechar. Podem acontecer quanto estou no banho. Ou sentado na sanita. Ou a conduzir. Acontecem frequentemente quando estou na cama, com insónias. A relevância do meu trabalho e o receio da velhice e da morte geralmente jogam ping-pong (ténis de mesa, desculpem – não vá alguém ofender-se) na minha mente.

Boa parte das vezes, a conclusão a que chego é uma: o meu trabalho não é assim tão relevante. Sou um contador de histórias, tenho as minhas ideias firmes sobre uma série de assuntos – mas não sou particularmente transgressor ou revolucionário. Mas tenho orgulho e brio no que faço. Quero fazer o melhor que consigo. Quero fazer as pessoas rir, num misto de generosidade e egoísmo que me parece característico de boa parte das pessoas que fazem vida do humor. Sim – é maravilhoso sentir que se melhorou o dia de alguém. Mas, quem queremos enganar? Em parte é maravilhoso porque todos, de uma forma ou de outra, gostamos de ser amados. Isso resume as intenções de boa parte das pessoas que fazem comédia.

Às vezes sou acusado pela geração de angry young men do humor negro das redes sociais de ser um tipo brando, fazendo um humor desprovido de risco – bah, é para o lado que durmo melhor. Posso sempre responder que risco é o que todos nós assumimos quando seguimos esta vida, sejamos politicamente incorrectos ou brandos – não ter graça ou perder relevância é o risco com que vivemos a cada segundo, façamos nós piadas sobre violações ou sobre ser pai. Temos todos a cabeça no cepo, todos os dias, a toda a hora – mais ainda na era do escrutínio constante e da memória imorredoura. Todos podemos lixar-nos a qualquer minuto, independentemente do estilo de comédia que façamos.

Para mim, não há humoristas transgressores virtuosos versus humoristas acomodados chochos. Isso significaria dizer que o George Carlin é melhor que o Jerry Seinfeld, o que não é verdade. Nem o Jerry Seinfeld é melhor que o George Carlin. Um optou por fazer humor incendiário que põe os dedos na ferida; outro optou por regalar-se com a observação das pequenas minúcias da nossa vida. Ambos são mestres do seu domínio (para citar uma expressão popular de Seinfeld embora não relacionada com comédia). Ambos fazem-me rir muito. Em Portugal há uma tendência de alguns humoristas que se dizem transgressores de cascar nos humoristas que eles acham bem comportados e acomodados. É porque somos um país pequeno a vários níveis. Na América, o espírito de amizade e colaboração entre comediantes das mais diversas escolas é nítido: há picardia, mas há um sentido de comunidade e respeito mútuo que em Portugal ainda é débil. Não estou a apontar o dedo a ninguém especificamente – ou então estou a apontar o dedo a todos nós. Eu incluído.

Uma das razões porque invejo os meus amigos músicos é, para começar, por saberem fazer música – coisa que eu adorava saber fazer e não sei; sou apenas um bom ouvinte dela. Outra coisa que invejo é o espírito de camaradagem que há entre eles. Enquanto que na comédia escolas diferentes entram em antagonismo e egos e rancores explodem com facilidade, eu vejo músicos de estilos e escolas diferentes uns dos outros a divertirem-se uns com os outros, a colaborar uns com os outros, a aprender uns com os outros.

Aqui há tempos, lembro-me de um idiota qualquer me dizer algo do género, referindo-se a músicos portugueses: “Sinceramente, não sei como é que podes gostar do artista X e do artista Y ao mesmo tempo”. Gosto porque o X e o Y são incríveis. Mestres do seu domínio, almas criativas trabalhando com dedicação os seus dois estilos – um é mais pop, o outro é mais alternativo. E DEPOIS? Ouço e leio frases como a do idiota supracitado e vejo X e Y a trabalharem juntos, a admirarem-se mutuamente e penso: “Estes tipos é que sabem”. Eu preocupadíssimo com o que um idiota qualquer disse sobre eles – e eles ali, à minha frente, encolhendo os ombros perante o preconceito e fazendo o que tem de ser feito.

Escrevo estas linhas depois de ter visto o extraordinário documentário realizado por Bobcat Goldthwait (sim, ESSE Bobcat Goldthwait, de Academia de Polícia e, mais recentemente, autor da comédia negra The World’s Greatest Dad, o melhor dos filmes finais da carreira de Robin Williams), Call Me Lucky.

O filme centra-se no humorista Barry Crimmins, uma lenda do stand-up, na América, e uma voz tão politicamente activa, ácida e violenta que é um daqueles casos em que, legitimamente, se pode falar de Politicamente Incorrecto. Com maiúsculas e tudo. Incorrecto no sentido de seguir no caminho contrário da norma, do aceitável, do status-quo; uma voz corajosa contra a corrupção, os poderosos e tudo aquilo que, preguiçosamente, tendemos a aceitar como o mundo em que vivemos, sem questionar. Crimmins questiona, desde que começou a trabalhar, nos anos 70 – a sua figura alta, cabelo desalinhado, bigode handlebar, garrafa de cerveja numa mão e cigarro na outra, barafustando contra, basicamente tudo, e sempre com um ponto de vista forte, fazem dele aquilo que quase nenhum humorista é em Portugal, hoje (e digo isto sem qualquer juízo de valor contra qualquer humorista – é apenas uma constatação de facto) – genuinamente Politicamente Incorrecto. Genuinamente revolucionário. É útil ver a primeira metade de Call me Lucky para perceber a diferença fundamental entre as transgressões de Crimmins – que em nenhuma altura do documentário se queixa de perseguições, apesar de desde sempre trabalhar material que assegura quase de certeza a marginalização de um humorista – e as transgressões de outros comediantes. Quando Crimmins explica que, depois de participar em eventos de caridade ligados à SIDA, um dos seus conterrâneos fascizóides lhe pergunta “Participaste nisso porquê? És paneleiro?” e ele lhe responde “sou tudo o que te ameaçar; sou um comunista com SIDA e que morde”, percebemos que ele fala a sério. Não no sentido de ser um comunista com SIDA – mas no sentido em que morde. Está ali um fogo genuíno e verdadeiro e uma comédia que vai mais longe que o efeito de choque – tal como um bom disco punk, uma comédia que vai à guerra e pode mudar o mundo. Barry Crimmins tem a legitimidade de se assumir como uma pedrada no charco. Em Portugal, nenhum de nós pode – desde os mais brandos aos mais incorrectos e ácidos. Porque muitas vezes – exceptuando coisas que o nosso mais Crimminsiano autor de humor, o João Quadros, escreve – a acidez dos mais ácidos é uma acidez relativa, não muito diferente da que usamos quando somos putos no recreio da escola, antes de nos chagarem a cabeça sobre o que se pode dizer e o que é feio dizer. Crimmins está noutro nível.

A meio do documentário, há a revelação chocante para quem não conhece a biografia do humorista: durante um espectáculo, em 1992, Barry Crimmins partilhou com o público a revelação de que, em criança, foi repetidamente violado pelo padrasto da sua babysitter, por vezes até perder a consciência. Isso podia tê-lo destruído – e em parte, conseguiu-o; é claramente um peso terrível para carregar o resto da vida – mas alimentou a fúria incendiária da sua comédia e deu-lhe a relevância de arma contra os agressores e em prol das vítimas. Quando a Internet entrou nos lares da América (e do mundo), em meados dos anos 90, Crimmins acumulou com o seu trabalho de humorista incómodo, a missão de cortar pela raiz a proliferação de grupos de tráfico de pornografia infantil e pedofilia nas salas de chat da AOL (America On Line). Foi ao Senado americano passar por louco enquanto toda a gente à sua volta questionava o funcionamento dessa coisa nova, para jovens e aparentemente sem grande importância, chamada Internet.

A Internet cresceu a um ponto impossível de controlar a proliferação de tais crimes – mas em 1995 Barry Crimmins importou-se, assumiu a cruzada pessoal com a mesma fúria certeira das suas piadas. Sem medos. E sem nunca se queixar de nada – a não ser das verdadeiras injustiças da sociedade e do Sistema.

A dada altura do filme vemos Barry Crimmins, num espectáculo recente – felizmente ainda os faz, embora viva afastado do mundo do showbiz, numa cabana encantadora no meio de uma floresta nos arredores de Nova Iorque, onde parte a sua própria lenha – manifestar-se contra os autodenominados “politicamente incorrectos” de hoje. Com a ira que lhe é característica, ele diz algo que soa infinitamente melhor em inglês do que se eu traduzir aqui para português.

“You know who the biggest suckheads in the world are? People who think they’re clever by being like, ‘Well, I happen to be politically incorrect!’. And now you get to act like you’re a cutting edge rebel because you’re reinforcing the oppressive status quo! You sack of fucking rancid horse assholes!”

Doa a quem doer… ele tem razão. A verdade é que ninguém é politicamente incorrecto, revolucionário ou está a meter qualquer dedo em qualquer ferida da sociedade ao fazer piadas sobre vítimas. Pelo contrário – na verdade está a ser-se completamente pactuante com quem está por cima, o agressor. E não há nada de mais “correcto” e “normal” do que isso. É claro que ninguém tem o direito de dizer que o humor deve ser isto e não aquilo – o humor é muitas coisas diferentes e toda a gente deve ter a liberdade de o fazer sobre todos os assuntos (assim como não tem de estranhar se alguém se irritar com alguns assuntos – o direito de ficar ofendido com uma piada é tão legítimo com o direito de fazer a piada; e além disso, a ideia de uma piada dessas não é, por definição, provocar uma reacção?), mas só alguns conseguem a proeza de fazer rir e de mudar o mundo ao mesmo tempo. Barry Crimmins é um desses, e todos nós estamos a milhas de lá chegar.

Sim, somos todos uns meninos. Eu sou. E vocês também, angry young men do Facebook.