O acordar do monstro adormecido

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Olá, compinchas!

Sim, admito: sou um bloguista desnaturado. Mas talvez quem viva de escrever todos os dias perceba o quanto um blog é uma ideia melhor em teoria do que na prática, para quem escreve por profissão quotidiana. Eu estou sempre a escrever – escrevo duas edições diárias d’ O Homem Que Mordeu o Cão, para a Comercial; escrevo uma edição diária da minha rubrica de geekness musical da M80, Super Parada de Genius Jackpot Mix; escrevo dilemas semanais para a websérie-podcast Uma Nêspera no Cu (2ª temporada, estreia amanhã!); e depois há todas as outras coisas que vou escrevendo sem que ninguém me peça, por iniciativa própria – argumentos, episódios-piloto – na esperança que um dia ganhem asas (embora cada vez me pareça mais improvável que ficção escrita bata a chamada realidade, o que, tristemente, lixa o trabalho de um argumentista).

É por isso, que apesar das boas intenções, abrir um blog como este, acaba por revelar-se tarefa ingrata: depois de um dia inteiro a escrever por emprego, quando chega a hora do relax, é tramado para quem escreve dedicar-se ao hobby de… escrever. A sério. É como pedir a um polícia que, depois de um dia inteiro a perseguir super-vilões, dedique o seu tempo livre, ao fim do dia, a perseguir larápios do seu bairro. Só pelo gozo da coisa, para descontrair. (Ainda assim, não estou a comparar a profissão arriscada de polícia com a profissão confortável de gajo-que-escreve-para-fazer-rir; embora, há que dizer, a minha também é uma ocupação com o seu quê de risco, nomeadamente risco de ataque cardíaco devido a sedentarismo e má alimentação.)

Por isso acabei por manter, nos últimos meses, uma relação blasé com este estaminé, optando por usar o Facebook para despejar pensamentos e observações em suaves pastilhas. Pois é com incontido entusiasmo que anuncio que isso vai mudar (espero).

A verdade é que estou um bocadinho farto do Facebook. A gota de água terá sido a estranha mudança, sem aviso, do funcionamento da ferramenta Facebook Mentions, que uso para transmitir concertos na minha cave. Na sexta-feira estranhei o número de espectadores dos Deolinda estar bloqueado nos 2 mil e pouco, quando em semanas anteriores artistas como Virgem Suta, Miguel Araújo e António Zambujo, David Fonseca, Ana Moura, terem tido um número de espectadores simultâneos na casa dos 15 mil. Depois do – magnífico – show dos Deolinda, fui averiguar o que se passava. E o que se passa é que o Mentions passou a funcionar como os posts normais: queremos mais alcance, temos de pagar.

Ora, tal como disse num post que fiz no Facebook, o que me agasta nesta situação não é o pagar; eu pagaria de bom grado por um bom serviço. O que me incomoda é a mudança súbita das regras do jogo, mal – ou mesmo nada – comunicada. Se eu soubesse que o meu alcance máximo com o concerto dos Deolinda seria de 2 mil pessoas, teria tido a escolha de o transmitir noutra plataforma. Para chegar a 2 mil pessoas, seria preferível dar a essas 2 mil pessoas uma experiência melhor de imagem e som que a do Mentions – o meu canal de YouTube, por exemplo. Gostaria de ter sabido a tempo para poder ter essa escolha – os Deolinda mereciam e quem segue estas minhas transmissões, também. O que me atraiu desde a primeira hora no Mentions nunca foi a qualidade da transmissão (aquele formato 1:1 é um pesadelo para enquadrar bandas de muitos elementos); sempre foi o quão imediato era, aliado ao poder de chegar instantaneamente a muita gente. A partir do momento que se vai o poder de chegar a tanta gente, eu teria preferido transmitir os Deolinda num formato decente de imagem e em HD.

Por cima desta gota de água, caiu outra – quando me manifestei sobre isto no Facebook, várias foram as almas que me apontaram os seus dedos acusadores, incriminando-me do pecado mortal da chico-espertice e de querer o melhor sem pagar (sendo que, nesse mesmo post, eu dizia que estava disposto a pagar – mas a um serviço de streaming superior ao do Facebook, daí ter pedido dicas aos leitores – felizmente foram muitos os que forneceram dicas válidas e inspiradoras). E daí surge a grande decisão do fim-de-semana: desmamar um tanto ou quanto do meu Facebook e passar a investir nesta casa virtual tão mais salutar do que essa rede social tão cheia de injustiças (as páginas inofensivas que são bloqueadas e as páginas terríveis de promoção de ódio e violência que continuam “dentro dos padrões de ética” do Facebook!), de ligeiras faltas de transparência gananciosas e de uma cultura de comentários que se rege pelo disparar primeiro e reflectir depois (ou nem sequer reflectir).

Feitas as contas, pensei: o tempo que perco a lidar com as agruras do Facebook e a assegurar que há sempre posts de algum interesse, é tempo que poderia estar a usar para fazer coisas mais interessantes na morada virtual da minha cave – este blog. Talvez esteja na hora disso acontecer. Nas imortais palavras de um leitor irado do meu Facebook: “Se dizes mal do Facebook, o que é que estás aqui a fazer?”. Pois, ele tem a sua razão.

Serve então esta missiva para vos comunicar, caros leitores, que as coisas irão voltar a animar por estas bandas, passando a minha página de Facebook a ser mais uma plataforma para anunciar o que se vai passando por aqui. E também que os próximos concertos na Cave passarão a ser transmitidos em gloriosa HD neste canal de YouTube, pelo que aconselho vivamente os interessados a subscreverem-no o quanto antes, de modo a não perderem pitada.

Obrigado por tudo. Ficai atentos, que vêm aí coisas bem bonitas.