Há dois anos abri um crowdfunding para tentar ver financiado aquele que continua a ser o projecto mais pessoal e importante da minha vida: transformar a tragicomédia que escrevi, Por Ela, num filme. Um filme protagonizado pelo César Mourão, a Ana Bacalhau e o Tónan Quito, realizado pelo Jorge Vaz Gomes e com música do João Só é do Samuel Úria.
Continuo a achar que é a melhor coisa que escrevi na vida e continuo a achar que dificilmente conseguirei escrever outra assim. Talvez por isso tenha, desde há dois anos, a urgência de contar esta história ao público. Infelizmente ainda não aconteceu, mas todos os dias, desde há dois anos, não passam 24 horas sem que, de alguma maneira, eu dê por mim a partir a cabeça a tentar encontrar uma maneira de fazer o filme (e, de vez em quando, a ter reuniões com potenciais ajudas para que ele seja feito).
A luta tem sido dura e não foi vencida. Conseguimos hype, conseguimos pôr o projecto no mapa e batemos o recorde de quantia recolhida em Portugal para um projecto em crowdfunding… Mas, apesar do recorde que tanto nos orgulhou e entusiasmou, não conseguimos reunir a quantia necessária para o projecto ser financiado. Não desistimos. Um produtor internacional chegou-se à frente, interessado pelo burburinho provocado pela operação de crowdfunding. Percebi que estávamos no mesmo comprimento de onda, e que ele encontrara no argumento algumas das referências que me inspiraram – Judd Apatow, Cameron Crowe, David Gordon Green. Desenhou uma hipótese apelativa de produção… e depois não disse mais nada.
E não desistimos. Batemos a várias portas grandes e mais pequenas, encontrámos várias vezes interesse, levámos uma tampa de um canal de televisão (cujo parecer sobre o filme apontava como defeito aquela que fora uma das minhas motivações a escrevê-lo – o facto de existir numa fina linha indefinida entre a comédia e o drama; teria sido mais fácil para vender o projecto se eu tivesse pendido ou para um lado, ou para o outro, mas tenho para mim que a vida, ela própria, existe nessa mesma fina linha entre a comédia e o drama). Ainda não conseguimos. Olho com optimismo o surgimento de plataformas alternativas como a Netflix, mas ainda não está exactamente claro como funciona um possível modelo de produção local.
De maneira comovente, os apoios francos e abertos que conseguimos reunir foram das pequenas instituições, aquelas que menos orçamento têm para nos ajudar, mas que, ainda assim, se chegaram à frente para o fazer: sabendo que parte da narrativa envolve a morte de uma personagem, uma agência funerária disponibilizou a 100% as suas instalações e o seu equipamento; restaurantes ofereceram-se para fazer as refeições da equipa; particulares ofereceram-se para trabalhar nos cenários do filme; a Câmara Municipal do Fundão, ao saber que uma das cenas-chave do filme envolvia um campeonato de cuspimento de caroços de cereja, ofereceu a sua terra (e as suas cerejas) para que lá filmássemos. E isso é precioso. Pode não chegar para que um filme seja concretizado, mas são ajudas preciosas e calorosas.
Percebemos que em tempo de crise é quem tem menos que se chega à frente para ajudar como pode – e esperamos contar com a ajuda de todas essas pessoas e instituições quando, finalmente, conseguirmos levar o projecto avante. Porque, nem que parta a espinha, hei-de conseguir levar o projecto avante.
Começam, no entanto, de momento, a escassear as ideias sobre o que fazer para que o Por Ela se transforme no filme que queremos ver feito. Não desistimos, nunca. (Aproveito para dizer que, se desse lado estiver alguém que tenha ganho o Euromilhões e que queira investir num filme, aqui estamos nós.) Mas a quantidade de oportunidades para concretizar isto existe na razão inversa da sede, da fome, da ânsia que tenho de partilhar esta história com o público. Se alguém tiver ideias, que as diga.
O que posso dizer é que, nos últimos tempos, várias pessoas voltaram a perguntar-me pelo Por Ela, o que tem sido maravilhoso – prova que o projecto não desapareceu da memória de quem acompanhou a tentativa de o fazer há dois anos. Isso reaviva mais uma vez o meu entusiasmo por esta empreitada.
E sim, eu sei que tenho projectos profissionais com fartura e que podia estar sossegado e não queimar as pestanas de forma tão obsessiva a pensar em maneiras de pôr o Por Ela a andar. Faço coisas de que gosto na rádio, na TV e um outro argumento meu para cinema (escrito há mais tempo) conseguiu o ano passado um subsídio do ICA e será transformado em filme este ano, estando agora em pré-produção.
Mas não é o Por Ela. A história que reflecte mais do que qualquer outra coisa, seja na parte cómica, seja na parte dramática, aquilo que eu sou por estes dias.
Paralelamente, enquanto continuo a tentar encontrar maneiras de produzir o filme, dei por mim a tentar fazer algo para acalmar a minha vontade de partilhar esta história. Algo de profundamente arriscado – mas se há altura para se ser arriscado é esta; a chamada meia-idade. Já nos perdoam certas coisas. (Com a breca, co-criei e participo numa coisa chamada Uma Nêspera no Cu, querem melhor exemplo disso?)
Peguei no argumento e comecei a esboçar uma maneira alternativa de contar esta história, enquanto ela não é filme. Nos tempos livres comecei a escrever a mesma história (rigorosamente a mesma história) como se fosse um…
Raios. Eu até estou com medo – aliás, nem é tanto medo; é pudor. Estou com pudor de dizer as fatídicas palavras, porque a possibilidade disto redundar em fezes é enorme.
Mas estou a trabalhar, discretamente, cuidadosamente, sem pressões, sem sequer o objectivo de publicar isto, numa versão do Por Ela que seria… que seria…
(Porra, isto é terrível. É terrível porque o país não precisa de mais um tipo que não é escritor de literatura digna desse nome a fazer isto. Mas que se lixe:)
Malta, tenho andado pela calada, a transformar o Por Ela num sacana de um livro. Num filha da mãe de um romance.
Não sei se vai ser bom, se vai ser mau; é provável que vá ser mau, e por isso não sei se alguma vez ele deixará de ser uma pasta dentro do meu computador.
Um filme eu sei que, um dia, ele irá ser – a luta continua! Mas, para já, a experiência de transformar isto num romance (e ainda vai no começo) está a ajudar-me a exercitar outro tipo de escrita, outro tipo de estrutura, outro tipo de linguagem. Embora a minha “voz” (ou “vozes”) já esteja presente em cada pedaço do argumento. Mas uma coisa é um argumento, outra é um livro.
Eu respeito muito os escritores a sério. E sei que já temos demasiados escritores a brincar, neste país. Não é preciso mais ninguém para arrastar o panorama literário pelas ruas da amargura. Quero que saibam que tenho isso em conta e que uma coisa é juntar em livro as histórias d’ O Homem Que Mordeu o Cão ou da Caderneta de Cromos e que outro bicho bastante diferente é um romance. Quero que saibam que, neste momento, estou a fazer isto para mim e depois logo se vê.
Mas acima de tudo, em nome de todo o interesse que, desde há dois anos, o Por Ela gerou em tantas pessoas, quero que saibam que esta história continua viva. E também que, mais do que qualquer outra, quero muito contá-la.