“Façam televisão e tenham uma vida de glamour”, diziam eles. Tá bem tá

Apresento-me perante vós com apenas umas 3 horas de sono. 2 se descontarmos a hora em que me rebolei na cama a pensar “tão poucas horas de sono, que horror, que horror, vou dormir pouquíssimo, que horror, tão poucas horas de sono”.

Ontem estive a gravar um sketch que é praticamente uma curta metragem de acção para a abertura do programa televisivo 5 Para a Meia-Noite, que recomeço a fazer no dia 8 de Abril. Às tantas da madrugada – há poucas horas, portanto – eu estava numa fábrica de moldes de plástico em Frielas a levar tareia. Tareia fingida – a questão é que eu sou tão desastrado que, no meu caso, consigo aleijar-me a filmar cenas de tareia fingida. E a culpa não é de quem me bate – que ontem era um bando de gangsters chineses (mas não vou revelar mais sobre isso) – mas minha. Porque a pessoa que está a fingir que me bate, está a ter o cuidado de não me acertar com força com os punhos. Só que eu acerto-lhe com o meu corpo com toda a força nos punhos. É como se eu estivesse a espancar os punhos de indivíduos usando o meu corpo.

Mas pronto – não foi essa a parte mais bizarra. A parte mais bizarra foi que passei parte do dia de ontem com um olho negro. Um olho negro feito em maquilhagem super realista. Tive de gravar uma série de cenas com esse olho negro na Parede, num lugar de lendas chamado Tony’s Bar; e depois tivemos de ir para uma fábrica em Frielas.

Ora o que aconteceu? Aconteceu que eu me esqueci que estava com um olho negro. Um olho negro falso; mas um olho negro horrivelmente negro, de quem não levou um mero soco mas sim pontapés na cara. Então quando chego à portagem de Carcavelos, eu agora à distância consigo processar a informação e lembrar-me que de facto o senhor da portagem, que eu conheço porque passo lá todos os dias, estava a olhar para mim com um ar entre o desconfiado e o preocupado. Ao mesmo tempo, no carro comigo iam os meus colegas Francisco Palma e João Pedro Barata. O Palma estava com ar de assassino psicopata, também cheio de escoriações falsas, uma camisola de alças e um casaco de fato de treino velho; e o Barata tinha estado caracterizado como mulher, mas agora só tinha a maquilhagem, de resto estava vestido normalmente e sem peruca – e ele é careca.

Por isso eu consigo perceber a preocupação e o pânico do senhor da portagem. E quero aqui dizer-lhe, se ele me estiver a ler: eu sei que o que viu foi a minha pessoa, com um olho negro, acompanhado por um tipo com ar de assassino e por um homem careca com rimel e baton. ESTÁVAMOS A GRAVAR UM SKETCH PARA A TV!

Eu já ontem deixei isso explicado no Facebook porque temi que o senhor da portagem fosse chamar a polícia a pensar que eu estava a ser raptado. A parte mais inquietante é que fiquei com a sensação de que algumas pessoas no Facebook acharam, mesmo assim, que eu estava a ser raptado. Que os bandidos me tinham obrigado a fazer um post a dizer que estava a fazer um sketch. Não foi isso. Nem são eles que me estão a obrigar a escrever este post, arma apontada à minha cabeça.

Aconteceu mais uma coisa na portagem: eu quando estou a lidar com pessoas na companhia do Francisco Palma, tenho sempre medo que ele diga uma coisa qualquer embaraçosa, geralmente embaraçosa para mim. Tem acontecido. E eu estava com a sensação de que ele ia dizer qualquer coisa ao senhor da portagem, por isso quis despachar o pagamento e voar dali o mais depressa possível.

O Palma começa então a dizer qualquer coisa aos gritos; eu nem quis ouvir. Ouço o Palma a começar a falar aos gritos e arranco a toda a velocidade depois do senhor me dar o troco. Afinal de contas, o que o Palma queria fazer era explicar ao senhor que estávamos a gravar um sketch – o que era uma coisa decente de se fazer. Ele ia gritar “OLHE QUE ISTO É A FINGIR, ESTAMOS A GRAVAR UM SKETCH!” (que era o que eu devia ter dito). Mas como estou tão escaldado com as coisas do Palma, ouço o Palma a falar e ponho de imediato o carro a andar a toda a velocidade para evitar embaraços. Ou seja, o que o senhor da portagem presenciou – para além do bonito quadro da minha pessoa, num carro, todo esmurrado na cara, acompanhado por um psicopata de fato de treino e um careca maquilhado – foi uma fuga a toda a velocidade enquanto alguém no carro, no banco de trás, gritava coisas imperceptíveis. Juro-vos que temi que ele mandasse a polícia atrás de nós. Foi angustiante.

Ontem, pela hora de jantar, pus um vídeo no Facebook sobre aquilo por que estava a passar. A equipa de produção decidiu jantar no Loureshopping. E eu estava cheio de fome e estava prestes a sair do carro para ir jantar, quando me lembro: EU ESTOU COM UM OLHO TODO NEGRO. Eu ia precisar de gravar cenas a seguir com o olho negro, por isso estava maquilhado. Ora, eu tenho a sorte de ser uma figura algo conhecida – as pessoas são geralmente muito simpáticas comigo; os antipáticos geralmente aparecem só no Facebook – e eu não estava preparado para atravessar um shopping cheio de gente a ter de explicar a todas elas “ISTO É MAQUILHAGEM, ISTO É MAQUILHAGEM, NINGUÉM ME BATEU, MAQUILHAGEM, MAQUILHAGEM”. Imaginem – alguém me via assim e mandava uma história para uma revista a dizer que Ana Galvão bate em Nuno Markl. Resultado – e isto vai para toda a gente que ambiciona ter uma carreira na televisão – malta, não há glamour nenhum nisto. Vejam o meu caso: tive de ficar fechado no carro, no parque de estacionamento de um shopping em Loures, com um olho negro, à espera que alguém me trouxesse qualquer coisa para comer. Acabou por ser o João Pedro Barata que, corajoso, vestido de homem, careca e maquilhado de mulher, foi à restauração do shopping buscar-me uma salada de massa e gambas. Salada de massa e gambas que comi no carro, no parque de estacionamento do shopping. Com um olho negro.

“Ah, a televisão, a vida de glamour, é só bons restaurantes e grandes vidas.”

Malta: passei toda a hora de jantar no parque de estacionamento. Salada de massa com monóxido de carbono. Sendo que as duas únicas rádios que se apanhavam no estacionamento do shopping eram a Rádio Amália e a Rádio Horizonte FM – Horizonte FM que, à hora de jantar, passa música pop para as comunidades de leste. Foi isso que decidi ouvir. Foi giro. Parecia um sonho. Não no sentido “um sonho lindo”; mas no sentido “coisas sem nexo que a mente humana cria enquanto dormimos”.

O mínimo que agora podem fazer é assistir ao programa. Vai para o ar no dia 8 de Abril.