O desespero de ser interessante e relevante quando se é uma trampa

Ponhamos os olhos nesta idiota:

Swan killed for selfie >

Na Macedónia, esta turista matou este cisne – por puro e simples desconhecimento de como tocar numa criatura infinitamente mais delicada e bonita do que ela; já agora, a melhor maneira é não tocando, a não ser com o olhar – porque queria tirar uma selfie com ele. Analisemos: esta moça estava, no fundo, a lutar por aquilo que, sejamos sinceros, todos lutamos quando enchemos as redes sociais com a nossa cara em sítios especiais ou espectaculares, na companhia de criaturas especiais ou espectaculares: queria ser interessante e relevante, deste modo pronto-a-comer como as redes sociais nos fazem (acreditamos nós) interessantes e relevantes.

Notícias para ela – e para todos nós: não somos. É duro. Mas não somos.

Podemos sê-lo por variadas razões, mas nenhuma passa por uma fotografia tirada a nós próprios pela câmara de um telemóvel na nossa mão ou encaixada num selfie stick (sobre este acessório – selfie stick não poderia ser uma designação carinhosa para o pénis de um solitário?). Por muito bem que esteja o nosso sorriso e a nossa pose numa masturbação fotográfica desesperada por aprovação e likes – a forma pronto-a-comer de afecto que as redes sociais trouxeram às vidas da Humanidade – se somos uma trampa, continuaremos a sê-lo. Sim, mesmo que escolhamos o melhor filtro do Instagram para o disfarçar. Quanto mais depressa percebermos que este nosso objectivo de vida quotidiano (potencialmente destruidor quando descobrimos que, RAIOS!, não temos bateria e está aqui uma paisagem tão bonita para partilhar com a malta do Face!) não só não faz de nós pessoas de maior qualidade como – veja-se o caso desta imbecil – até pode sublinhar o quão tragicamente maus somos, melhor levaremos as nossas vidas.

Tirar fotografias é maravilhoso; transformá-las, custe o que custar, na nossa existência – isso é mais um sinal que o mundo é o pátio de um hospício e estamos só na pausa para apanhar ar antes de irmos lá para dentro, para o colete de forças.