O Dia da Rádio é como se fosse dia de anos

A Rádio é a minha vida, a Televisão a minha piscina. Dou umas braçadas, chapinho, aprendo a desembaraçar-me em zonas com menos pé – mas depois volto para a minha vida, a razão profissional da minha existência desde os tempos em que apenas a ouvia, numa pequena telefonia Sanyo, passando pelos tempos em que a fazia em casa em emissões de brincadeira com a minha irmã e pelos anos da pirataria em que trabalhei na Voz de Benfica, rádio não-oficial do meu bairro, até agora em que, orgulhosamente, trabalho com uma equipa de luxo na Rádio mais ouvida do país.

10960320_10153120770204617_1268400956082466003_o

Eu ainda sou do tempo em que a Rádio era considerada o parente pobre da TV (não foi assim há tanto tempo) e em que o mundo se encarregava de esfregar isso na cara da malta da Rádio. Lembro-me de, há uns anos, ter feito um longo hiato televisivo e de uma jornalista de uma revista me perguntar: “Então e quando é que acaba a travessia do deserto?”. Respondi-lhe: “Qual?”. E ela: “Então, nunca mais apareceu em lado nenhum!”. Expliquei-lhe: “Mas todas as manhãs estou na rádio”. Ao que ela retorquiu: “Tá bem, mas isso é só rádio. Eu digo é Televisão.”

Os olhos dela brilharam ao falar em Televisão. A Rainha dos media. O sítio para onde naturalmente um tipo da rádio “evoluía”. Ainda me lembro, quando me convidaram para me estrear como apresentador de TV, em 2001, de alguém da equipa de produção me dizer: “Está na altura de dares o salto”. O salto entendido como vindo das profundezas da Rádio para o trono dourado da Televisão. Dei o salto para esse programa, estampei-me nesse programa e voltei para o refúgio da telefonia. De 2001 até agora fiz muita coisa em TV (acima de tudo gosto de escrever para TV), pertenço com orgulho à geração de fundadores da SIC Radical e adoro fazer o 5 Para a Meia-Noite. Mas sei que a minha relação com a TV é efémera e insegura. Nem eu faço questão de lá estar, nem ela faz questão que eu lá esteja. Não nutrimos particular amor um pelo outro. Temos apenas uma amizade colorida. Com a Rádio, o amor é muito.

Gosto de fazer Televisão (se me for dada a liberdade que tenho na Rádio), mas é na Rádio que me sinto verdadeiramente feliz. Nenhum meio é tão imediato para quem vive de contar histórias e/ou de dizer piadas. Se as coisas não funcionam, não temos mais ninguém a culpar que não nós próprios. Uma ideia que tenhamos para Televisão tem de passar por uma quantidade insana de filtros – a luz ideal, os planos ideais, a maquilhagem ideal, o guarda-roupa ideal, os adereços ideais. A nossa ideia está dependente de muita, muita gente e nem toda pode estar no mesmo comprimento de onda que nós. Às vezes basta uma destas coisas falhar e está tudo estragado.

A maravilha da Rádio está na pureza e simplicidade do meio: a ideia sai-nos da boca e forma-se na cabeça do ouvinte. Não é uma questão de luz, planos, maquilhagens, etc. Às vezes é só uma questão de escolhermos as palavras certas e de as dizermos da maneira certa. E o filme está feito, do outro lado.

Uma das melhores sensações de estar na equipa que fez a Comercial subir ao primeiro lugar não é só a alegria de sentir que muita gente quer ouvir o que temos para dizer; a conquista mais importante desta odisseia é o facto de, finalmente, termos conseguido mostrar às pessoas que não somos um parente pobre, só porque não temos imagem (por acaso hoje em dia até temos) e porque não precisamos de estar tão bem vestidos como para fazer TV. A nossa desleal vantagem em relação à nossa prima Televisão é que ninguém carrega um LCD para o carro para ver um programa; já quem faz rádio acompanha quem o ouve no despertador, no banho, no pequeno-almoço, dentro do carro e, em muitos casos, no escritório, no computador. Se trabalharmos e dermos às pessoas razões para voltarem, todos os dias, seja uma história bizarra, uma canção improvável, um sketch ou uma mera conversa improvisada e não muito diferente das conversas que temos com os amigos, estaremos longe de ser parentes pobres.

Essa presença, essa proximidade, é algo com que a Televisão só pode sonhar. A intimidade, a quase amizade que se cria entre quem faz Rádio e quem a ouve – isso mais nenhum meio consegue replicar.

Hoje recebemos várias prendas comemorativas do Dia da Rádio. Algumas no sentido tradicional de prenda, outras que ilustram, de maneiras particularmente emocionantes, a ligação incomparável que se forma entre quem faz e quem ouve. E é interessante perceber que somos ouvidos por todas as idades. Nada mau para um meio tão velhinho.

Este foi o presente do Colégio Reggio Emília:

E neste link está o da Farmácia Ronil, cujas gentis funcionárias decidiram assumir alter-egos nossos.

Tudo isto faz com que a dor de levantar cedo se torne muito relativa. Este é o melhor emprego do mundo, e espero fazê-lo até ao fim dos meus dias. Já fiz muita coisa em Rádio, nos mais de 20 anos que a ela me dedico. Mas tenho sempre a sensação de que há ainda muito mais para fazer. Quando se constroem mundos com imaginação em vez de orçamento, o Céu é o limite.