O Homem Que Mordeu o Cão nasceu em Outubro de 1997, na distante primeira encarnação das Manhãs da Comercial, protagonizada pelo Pedro Ribeiro, a Ana Lamy, o José Carlos Malato e este que se assina. Este que se assina passara os anteriores anos da sua vida a iniciar carreira na rádio – primeiro na pirata Voz de Benfica; depois no Correio da Manhã Rádio; e a seguir na Rádio Comercial. Em nenhuma dessas aventuras eu soube o que era ter ouvintes – ou, pelo menos, o que era ter mais do que um número muito limitado de ouvintes. Não havia qualquer problema – quando se ama a Rádio, o gozo que se tem a fazer emissão para 100 ouvintes é o mesmo que se tem a fazer para 1 milhão.
Mas estava habituado a falar para criaturas abstractas que eu nem sabia se existiam ou se eram produto da minha imaginação. Quando o feedback começou a chegar a sério em 97 – os primeiros anos da interactividade internética, dos Yahoo Groups e do e-mail – foi algo de novo e o início de algo que mudou a minha vida.
Não tinha planeado que um projecto de rádio me desse a exposição que o Cão deu. Rapaz recatado, para mim o ideal era o que tive durante breves meses: escrevia material para o programa Herman Enciclopédia e dava a minha voz e criatividade para uma rubrica de notícias bizarras que eu estava longe de imaginar que se tornaria o meu verdadeiro início de carreira. O momento em que a máquina pegou e aí foi ela. O momento em que eu, sujeito tímido e que ambiciona sossego, se viu obrigado a dar a voz e depois a cara.
Ainda hoje mantenho contacto com alguns dos responsáveis pelo boom do Cão – ouvintes da fundação, que ainda hoje acompanham o que faço e, todos estes anos depois do distante Yahoo Group d’ O Homem Que Mordeu o Cão, surgem no Facebook dando provas de que o seu afecto por esta saga se mantém vivo.
O Homem Que Mordeu o Cão deu origem a um oceano de rubricas de rádio, um programa de televisão, espectáculos ao vivo e três livros – isto até 2004, o ano em que se deu por terminada a bonita aventura, com um elenco formado pelo Pedro, a Maria de Vasconcelos e este que se assina.
Uns dias eu acordava com a ideia de que a rubrica estava morta e enterrada; noutros preferia acreditar que estava em sono criogénico… e que talvez acordasse um dia.
E acordou, em 2013. Diz-se que não se volta a lugares onde se foi feliz – mas, e se voltarmos? E se arriscarmos?
Foi bom arriscar – depressa percebi que O Homem Que Mordeu o Cão tem a inesgotável vantagem de ser tudo o que me apetecer, dia após dia. Tem a base das notícias reais bizarras – mas tudo pode acontecer. E mesmo a base das notícias bizarras, é um sonho para quem, como eu, é viciado em histórias. Em contá-las e em ouvi-las.
O Homem Que Mordeu o Cão ressuscitado recuperou ouvintes antigos e conquistou novos. Entre os antigos, apercebi-me que muitos não tinham percebido que tinha existido um terceiro livro do Cão (O Homem Que Mordeu o Cão – A Revolução, de 2004); os novos perguntavam-me onde adquirir os volumes antigos. A única maneira? Por essa Internet fora, em versões lidas, relidas, amarelas e gastas. Algo precisava de ser feito. E fez-se arqueologia.
O Homem Que Mordeu o Cão – Os Clássicos, reúne num único volume quase tudo o que estava nos três primeiros. Foram retiradas coisas datadas e uma ou outra horrivelmente mal escrita, de acordo com o nível de exigência do Nuno Markl de 2015. Foi nesse processo de escolha que me ocorreu: isto tem de ser mais do que uma mera fria colectânea de material já conhecido. Isto tem de ser um diálogo entre o Nuno Markl quarentão e vivido de 2015 e o Nuno Markl tonto e palhaço dos primeiros anos do Homem Que Mordeu o Cão. Desatei então a escrever notas de rodapé sobre o que estava a ler – algures entre o afectuoso e o profundamente embaraçado. O livro chega mesmo a ter notas de rodapé do Markl de 2015 a notas de rodapé do Markl dos primeiros anos da década de 2000. Tornou-se um exercício terapêutico de esquizofrenia, ou uma espécie de viagem no tempo em que o Markl de 2015 se meteu num DeLorean e foi visitar o Markl de fins dos 90 princípio dos 2000 e aplicar-lhe caldos. Foi desgastante e, ao mesmo tempo, divertido. Fiquei feliz com o resultado final deste braço de ferro.
Respondendo à pergunta recorrente: quem tem todos os livros anteriores, tem vantagens em comprar o novo? CLARO QUE SIM! (Eu diria sempre isto) Agora a sério: para mim estava fora de questão limitar-me a um “best of”. O conteúdo foi rearrumado, as notas de rodapé dão outra dimensão à leitura e quem conhece os clássicos é capaz de achar graça em viajar comigo no tempo e visitar, mais de uma década depois, as coisas a que achou graça há tanto tempo, comentadas com o misto de nostalgia e cinismo que a idade acaba por nos colar à pele. Preocupei-me em criar algo de novo com os clássicos do Cão, de modo a que este volume seja uma mais-valia para os coleccionadores veteranos.
Para aqueles que se queixam de não encontrar os três volumes que começaram toda a aventura, O Homem Que Mordeu o Cão é uma cornucópia vasta de histórias que não conhecem e das quais, provavelmente, terão ouvido falar como se de material de lendas se tratasse. É também uma colecção de textos que estabelece os alicerces e o tom daquilo em que O Homem Que Mordeu o Cão se transformou hoje. Se adquiriram o anterior volume – O Novo, Incrível, Definitivo, Arrebatador, Estrondoso, Monumental e Titânico Livro d’ O Homem Que Mordeu o Cão – e deitarem as mãos a este, não precisam de mais nada: em dois canhenhos terão o essencial de toda a História escrita da rubrica a que devo, basicamente, tudo aquilo que sou.
A excelsa capa é, como tem sido habitual, da Patrícia Furtado, com base no bom velho boneco d’ O Homem Que Mordeu o Cão que criei em 2003 – e está uma categoria!
Espero que gostem. Sai a 3 de Novembro e vai haver várias sessões de apresentação e autógrafos pelos caminhos de Portugal, como já é tradição natalícia. Encontramo-nos por aí, comunidade caninófila!
