Apresentar os últimos anos de 5 Para a Meia-Noite foi uma viagem e peras. E maçãs. E morangos. E melancias. E melões. Aconteceu de tudo, no fundo.
Sendo eu fanático da série Breaking Bad, quando me perguntaram se eu estaria interessado em receber o Dean Norris no programa, ele que foi o estóico, incorruptível e trágico polícia Hank, entrei em profunda histeria. E disse que sim, enquanto explodia em nervos. Que se dissiparam quando Norris se revelou num dos tipos mais porreiros e menos vedetas que tive ocasião de conhecer no 5. A sério: há “vedetas” nacionais mais vedetas do que este homem, que foi uma das figuras mais carismáticas de uma das melhores séries de televisão da História da Humanidade. No fim do programa, deixou-se rodear pela equipa e pelo público e, pacientemente e sempre com um sorriso, deixou-se fotografar com toda a gente.
O Bruno Nogueira é um bom amigo e cúmplice de trabalho e se havia alguém para convidar para ser o primeiro a entrar nesta versão portuguesa e muito pessoal do Innuendo Bingo da BBC Radio 1, seria ele. Acabou por ser um dos momentos mais vistos e mais virais da minha carreira no 5. Deu muito gozo fazer e rio-me alarvemente sempre que revejo isto.
Tive a sorte de trabalhar com algumas das pessoas mais criativas do ramo, alguns deles acumulando escrita com interpretação, como é o caso do meu velho compincha, colaborador e padrinho do meu filho, o Francisco Martiniano Palma. Ele é um dos neurónios deste momento absolutamente demente de televisão e foi também, com o João Quadros e comigo, o responsável pelo brainstorm delirante que deu origem a isto. Eu lembrava-me de falar, antes do programa, com a Bibá Pitta e de ela me dizer que adorava ler mais livros – mas que se passam coisas demais na mente dela para conseguir concentrar-se. Transformámos isto num dos momentos que mais gozo me deu ver acontecer ali, em directo, sem rede e com uma quantidade insana de surpresas a cada minuto.
Nota: a Bibá Pitta não fazia a mais pequena ideia do que ia acontecer.
Por falar em pessoas que acumulam escrita com interpretação: a Mafalda Santos, a nossa actriz residente e o elemento visualmente mais atraente do elenco – sem desprimor para a careca do João Pedro Barata, que é linda – escreveu um dos meus sketches preferidos do programa, com uma interpretação brilhante do Pedro Luzindro: O Encantador de Betos.
E já que falámos do João Pedro Barata, ele criou o nacional-cançonetista mais peculiar e incatalogável da História: Carmindo. Aqui há agradecimentos a fazer ao João Pedro Coimbra, dos extraordinários Mesa. Por bizarro que vos soe, ele compôs parte dos instrumentais que abrilhantaram os épicos musicais de Carmindo.
O João Pedro Coimbra alinhou em mais desvarios meus – como a banda sonora, em directo, do momento em que respondi a uma das primeiras críticas que me fizeram no 5: que eu tinha os cotovelos secos.
Na primeira temporada que fiz do 5, um dos momentos que cresceu e se tornou numa espécie de culto foi a demanda semanal de um homem em busca do seu cunhado Raul. É uma daquelas ideias que só poderiam sair da cabeça do Francisco Martiniano Palma e que, embora tudo indique que nada têm para funcionar, se transformam em clássico instantâneo. As pessoas gritavam-nos “OH RAÚL” na rua. Vejam a saga completa no YouTube, estão lá todos os episódios deste momento estranhamente poético de humor.
Outra grande personagem do Palma: Renato Aliança, o homem que conseguia chamar a televisão para filmar as grandes descobertas que faziam e que, no fim, não eram assim tão grandes. Este foi o último episódio dessa saga – e o mais duro de fazer, como poderão ver. Até porque não estava calor.
Tive muito orgulho nos momentos musicais que tive ao longo destes anos. Conseguimos coisas especiais, como o momento em que o Paulo e a Rita, os Srs. Tigerman e Redshoes, nos brindaram com a honra de os ver fazer ao vivo a banda sonora de um momento do belíssimo filme do Rodrigo Areias, Estrada de Palha. Havia um ecrã grande no estúdio onde o filme passava e os dois talentosos músicos fizeram esta maravilha:
E o gozo que é ver o César Mourão com rédea solta?
E o Ricardo Araújo Pereira com rédea solta?
E a Teresa Guilherme com rédea solta?
Foi uma aventura bonita, sim senhor! Obrigado a todos.