Porque já não me zango nas redes sociais

Porque cada vez me parece mais ridículo gastar tempo e energias em trocas de impropérios com estranhos, zaragatas que nunca irão a lado rigorosamente nenhum e que só envergonham qualquer pessoa com um resquício de bom senso que participe nelas, sobretudo perante o verdadeiro poder, interesse e relevância de um ataque de nervos de quem tem coisas realmente importantes para dizer porque, por exemplo, a sua vida – e a de outros – depende dela.

Há dias houve uma zaragata no meu Facebook por minúcias. Um senhor  veio chamar-me de arrogante e de tipo com sorte por ter nascido em Portugal, porque se fosse lá fora não era ninguém. Sabe que mais? Provavelmente tem razão. Ser arrogante em Portugal é, na verdade, uma estupidez precisamente por isso: porque ser “famoso” é um conceito que termina secamente no momento em que passamos a fronteira e já ninguém sabe quem nós somos. Por isso, não vale a pena o esforço de ser arrogante. Uma pessoa fica cheia de dores na sobrancelha, de tanto a querer manter elevada.

Mas o que quer que seja que eu sou, enquanto humano ou profissional, estou bem assim: faço o que quero, dou o meu melhor, tenho uma família, não creio que prejudique ninguém, não sou ladrão nem corrupto (pelo menos ainda não) e, muito sinceramente, aos 43 anos de idade começa a ser muito, muito estúpido perder tempo em que posso estar com os entes queridos, a debater com um estranho o que é que eu sou ou deixo de ser. Que discussão infértil! E, no entanto, é o tipo de coisa que acaba com mais pessoas envolvidas, trocas de insultos, horas e horas de trocas de insultos.

Para quê?

Ando a chegar a estas conclusões numa espécie de epifania em câmara lenta que já dura há anos. Mas, no que toca a este tipo de zaragata palerma de rede social acho que entrei, finalmente, na fase que o John Cleese define como sendo a fase “I don’t give a fuck”. Sim, claro, se alguém ameaça ou insulta alguém da minha família, para isso é que serve a opção “bloquear” e “denunciar” (que muita gente confunde com atentado à democracia; não, meus amigos, o bloqueio aqui é, ele próprio, um exercício democrático e não ditatorial. Trata-se do direito que tenho de não querer uma besta na minha “casa” a dizer alarvidades). Mas de resto? Bah.

As zaragatas nas redes sociais são, na sua essência, reles e microscópicas. Fúrias alimentadas por cobardia que nem ao nível do mais fino pelo púbico têm qualquer utilidade nas nossas existências ou nas daqueles que nos rodeiam. Há mais utilidade em três horas seguidas a jogar GTA. Sempre nos divertimos e melhorarmos os reflexos. Discutir com estranhos sobre nada, nas redes sociais, atrofia-nos e não faz qualquer sentido até porque dois antagonistas numa noite de impropérios no Facebook podem encontrar-se no dia seguinte como médico e paciente numa clínica, sem que nenhum deles saiba quem é o outro e como lhe desejou a morte, horas antes. É o quão patético isto é.

Agora, ponham os olhos no que aconteceu fora do mundo das redes sociais (e que, raios nos partam, cada vez mais confundimos com o mundo real): José Carlos Saldanha, doente de hepatite C e a prova viva e enérgica que tão complicada doença não afecta os testículos de um homem, chegou-se à frente, ontem, no Parlamento. Aí têm um tipo que, teoricamente, está muito mais debilitado do que qualquer um de nós, confortavelmente sentados atrás dos nossos teclados, a zaragatear uns com os outros à distância por merdas. Ele gritou – sem precisar de carregar no CAPS LOCK – a revolta dele e de muitos. Sem teclados, nem ecrãs, nem redes sociais, ele olhou o Ministro nos olhos e foi a voz dele e a de milhares de pessoas – incluindo as que já morreram, vítimas de ganância de algumas companhias farmacêuticas e da inoperância de Governos. Hoje anunciou que vai iniciar o seu tratamento gratuitamente e com isto abriu as portas para que outros como ele tenham acesso aos medicamentos.

Citando novamente John Cleese, mas agora em personagem, no sketch do Papagaio Morto: “If you want something done in this country you have to complain until you’re blue in the mouth!”. É isso. O resto, a fúria que destilamos atrás de um teclado por nada – é tão ridículo como passearmos pela rua com um funil na cabeça e uma vela acesa metida no rabo.