Sai uma história de amor bizarra para a mesa do canto! (Está feito.)

Hoje fecha-se um momento importante na minha vida: está vista a versão final e que chegará aos cinemas do filme Refrigerantes e Canções de Amor, que o Luis Galvão Teles dirigiu com base num argumento meu. Foi um processo longo, desde o dia em que a Cláudia Semedo – a big bang de todo este processo, com quem tenho uma dívida de gratidão que espero pagar à altura do que ela merece – levou o meu argumento ao Luis. A aventura de transformar o meu argumento num filme foi repleta de altos e baixos, de alegrias e frustrações – mas o filme está feito, fechado, terminado. O que vi hoje é o que verão a partir de dia 25, quando Refrigerantes e Canções de Amor chegar aos cinemas. Nesse momento, abre-se novo capítulo – o momento em que uma história tão pessoal que anda comigo desde 2007, quando a escrevi, passa a ser do mundo e a ser gostada e/ou odiada, fora da zona de segurança em que tem estado todo este tempo.

Confesso que há um lado em mim que está com nervoso miudinho. Outro lado está calmo.

O lado nervoso é o normal – há uma coisa que tem o nosso nome estampado e que vai ser dada a conhecer ao mundo. Tem muitos outros nomes estampados e há muito que já não é só a minha história – é a visão que muitas outras pessoas, diferentes umas das outras, tem daquilo que escrevi, desde o realizador aos actores, passando pela cenografia, o guarda-roupa, etc.

Mas sim, o meu nome está lá estampado, e todos queremos que as pessoas gostem de uma coisa que tem o nosso nome estampado. Mas ter o nome estampado numa coisa é tramado, porque gera expectativas, sobretudo se o nosso nome andar estampado em coisas há muitos anos. Quando o trailer foi divulgado, as reacções foram óptimas (obrigado por isso), mas levou a que várias pessoas publicassem comentários simpáticos dizendo coisas como “isto vindo do Markl só pode ser de partir a rir!”.

Bem – obrigado pelo voto de confiança, mas essa é a primeira coisa que temos de tirar do caminho: Refrigerantes e Canções de Amor só é considerado uma “comédia romântica” porque temos que meter etiquetas nas coisas. Eu não sei bem que género é o filme. Eu diria que é uma história de amor, em primeiro lugar, antes de ser uma comédia. E como boa parte das histórias de amor, tem uma série de coisas que não dão vontade de rir – angústia, insegurança, sofrimento, solidão, dúvida, inquietação, insatisfação. Sofre-se bastante de todas estas coisas no filme, e não é para efeito cómico – a situação em que Lucas (Ivo Canelas) e a rapariga escondida dentro do fato de mascote de sumos, a Dinossaura Cor-de-Rosa (Victoria Guerra) é bizarra e labiríntica e não é fácil de resolver.

 

image

 

Este é um filme com gente muito neurótica dentro – não só Lucas e a Dinossaura, mas também Pedro – a supervedeta pop eternamente insatisfeita – e Carla, a agente dividida entre os dois artistas com quem trabalha. Mas as pessoas neuróticas – não somos todos? – merecem o amor, e a minha história tenta distribui-lo equitativamente com várias peripécias pelo meio: umas cómicas, outras sérias.

 

image

 

Mas não – não é um filme feito de marshmallows; digamos que tem marshmallows, mas com algumas pedrinhas no meio da fofa substância açucarada. Por isso, se forem em busca de O Homem Que Mordeu o Cão: o Filme ou de Paraíso Filmes ou de parecenças com qualquer outra coisa cómica que tenham visto escrita ou feita por mim, é provável que saiam com vontade de me bater. Avancem para Refrigerantes e Canções de Amor com esta ideia: é uma história de amor como – espero eu – nunca viram antes. Sobre pessoas que estão tão fisicamente e emocionalmente próximas uma da outra – no lugar menos romântico do mundo (um supermercado) – e, ao mesmo tempo, tão separadas uma da outra por inseguranças, mágoas… e fatos de dinossauro cor-de-rosa.

 

image

 

Voltando ao nervoso – há o tal lado de “será que alguém vai gostar disto?”. Mas há o lado calmo.

O lado calmo é o de quem sacou esta história das entranhas numa altura de turbilhão emocional (o argumento foi escrito em 2007-2008 entre o fim de uma relação e o começo de outra). Independentemente do filme, das bolas pretas que alguns (espero que não todos) críticos certamente lhe irão dar, dos gostos e não-gostos que ele suscite a partir de dia 25, esta história, o que ela representou e representa na minha vida, está arrumado num sítio especial cá dentro, à prova de tudo o que possa acontecer a partir daqui.

Espero que gostem. Tem um elenco notável (grandes Ivo, Victoria, João, Lúcia, Ruy, André, Gregório – entre muitos outros), uma banda sonora encantadora, um Jorge Palma imaginário interpretado pelo próprio e genial Jorge Palma, e o grandioso Sérgio Godinho a fazer de assassino de bigode. E uma dinossaura cor-de-rosa.

 

image

 

Acho que, à partida, esta mistura de coisas vale o preço do bilhete, certo?

 

 

Dia 25, lembrem-se que há mais no cinema do que Suicide Squad e Star Trek. Esses campeões lutam com outra artilharia e têm assegurada uma carreira nas salas mais duradoura que a nossa pequena criatura neurótico-apaixonada chamada Refrigerantes e Canções de Amor. Por isso, dêem-lhe uma oportunidade. Se não gostarem, eu ofereço-vos um desenho autografado que, daqui a uns anos, podem ir vender para o Ebay. Ou para a Feira da Ladra. Parecendo que não, ainda é coisa para arrecadar uns 20 euricos. 15, vá. Pronto, 10.